Começaram hoje, 25 de março de 2025, os trabalhos da primeira turma de juízes do Supremo Tribunal Federal para decidir se os denunciados pela suposta trama golpista serão ou não réus perante o Tribunal.
À parte o especial momento político-histórico do que está se desenrolando frente a milhões de brasileiros, via aparato midiático, talvez sem precedentes no país, outro drama se desdobra. Este, capturado pelo que tem de inusitado e – para muitos – injusto, trata da cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos.
Débora Rodrigues dos Santos, um caso de pichação no STF
A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, de condenar Débora Rodrigues dos Santos a 14 anos de prisão, provocou reação nas redes sociais.
No último domingo, 23, vários perfis começaram a publicar a hashtag #TodasSomosDebora, em apoio à mulher presa durante as depredações do 8 de janeiro de 2023.
A campanha pede aos seguidores dos perfis que postem principalmente uma imagem própria segurando um batom na mão.
A ideia é ser um protesto ao julgamento no STF, pelo qual a cabeleireira, mãe de um casal de crianças, recebeu pena por escrever, com o uso de um batom, a expressão “Perdeu, mané”, na estátua da Justiça, entre outros atos cometidos por ela.
A pichação como forma de protesto político, ontem e hoje
A Revista Sociedade Militar traz informações interessantes sobre a história de uma mulher, que como a Débora Rodrigues dos Santos, era esposa, mãe de uma criança, e que foi presa pelo mesmo ato cometido pela cabeleireira. As duas foram detidas por pichação de patrimônio.
A mulher era a poetisa Jacinta Velloso Passos, baiana, formada em pedagogia, casada com James Amado, irmão do famoso escritor Jorge Amado. Jacinta era de família tradicional de Cruz das Almas, na Bahia.
Histórias paralelas: Débora e Jacinta
A partir daqui as coincidências entre Debora e Jacinta terminam, já que a baiana, logo cedo, em 1944, entrou para o Partido Comunista Brasileiro. Rodou o Brasil lutando pelo que acreditava.
Em julho de 1962, Jacinta se mudou para Sergipe e foi morar sozinha em Barra dos Coqueiros. Após poucos contatos com o PCB sergipano, tornou-se uma militante avulsa, por conta própria.
A repressão política no regime militar
Dados pesquisados no site Documentos Revelados – que faz um trabalho de garimpo de documentos do período militar – lançam luz sobre este caso sombrio da repressão durante a ditadura militar brasileira.
A prisão e subsequente internação forçada de Jacinta Velloso Passos num hospital psiquiátrico por um período de nove anos, após ser detida por pichar um muro com mensagens de protesto contra o regime.
A prisão foi seguida por um período de detenção e interrogatório, culminando na internação compulsória.
No hospício, Jacinta viveu abandonada, encarcerada como doente mental, na verdade uma presa política sem julgamento. No prontuário médico dela está anotado com destaque, como se fora um diagnóstico: “desde 1944, é comunista”!
Jacinta reagiu à internação, mas foi acalmada com eletrochoques. Passou a viver isolada num quarto, afastada dos outros pacientes.
O fim trágico de Jacinta Velloso Passos: prisão, morte e legado
Segundo o jornalista e escritor Célio Nunes:
“Presa em 1964, Jacinta Passos foi internada no Adauto Botelho, removida depois para a Clínica Santa Maria. Internado como louca por 9 anos, para o sossego dos que não toleram comportamentos diferentes e contestadores. Depois de muitos eletrochoques, veio a falecer em 1973.”
A quem lhe perguntasse o que ela estava fazendo ali, no hospital psiquiátrico, Jacinta respondia sem pestanejar: “estou presa. Sou uma presa política. Foi o Exército. Estou presa desde 1965, quando caí, estava escrevendo num muro de Aracaju.”
Em 28 de fevereiro de 1973, faleceu aos 57 anos, no Hospital Psiquiátrico Santa Maria, em Aracaju, a presa política Jacinta Velloso Passos, deixando uma ampla produção literária: “Os Cadernos do Sanatório”. No atestado de óbito consta como causa do óbito “derrame cerebral”.
Jacinta Passos deixou uma filha, a historiadora Janaína Amado.
Jacinta Velloso Passos, de escritora renomada à condição de “louca” nos porões da psiquiatria em Sergipe.
Lagartense
março 2, 2024
4:41 pm
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Jacinta Passos, natural de Cruz das Almas na Bahia, era jornalista e escritora com 04 obras publicadas e militante filiada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Era casada com James Amado, irmão do famoso escritor baiano Jorge Amado.
Em 1951 aos 37 anos de idade começou a apresentar alguns sinais e sintomas psicológicos e logo após teve o diagnóstico de esquizofrenia paranóide.
Passou por alguns sanatórios até chegar sozinha em Sergipe, em 1962.
Escolheu a Barra dos Coqueiros para morar e acreditou mobilizar os pescadores da região em busca de melhorias para a coletividade.
Jacinta participava de algumas mobilizações políticas em Aracaju, mas de maneira bem tímida.
Aí veio o golpe militar de 1964, que derrubou o presidente do Brasil, João Goulart e o governador de Sergipe, Seixas Dória.
os comunistas em Sergipe foram presos um a um e não foi diferente com Jacinta Passos, que resolveu pichar muros em Aracaju, em protesto ao golpe militar.
Não deu outra, foi presa pelo Tenente Rabelo, que estava à frente do 28⁰ Batalhão de Caçadores de Aracaju, teve a vida investigada e como não havia nada que desabonasse sua conduta para mantê-la presa, no entanto as suas passagens pregressas por diversos sanatórios, foi o suficiente para o renomado psiquiatra da época, Dr. Hercílio Cruz, a pedido do 28⁰ BC, confirmar seu diagnóstico de esquizofrênica.
A partir daí, Jacinta foi conduzida ao hospital psiquiátrico Dr. Adauto Botelho e em seguida foi transferida para a Clínica Psiquiátrica Santa Maria, no Bairro Siqueira Campos em Aracaju, onde permaneceu por 09 anos.
Apesar do diagnóstico do psiquiatra, o que de fato a levou a prisão foi ser declaradamente comunista e quando alguém a perguntava sobre o por quê de sua internação, ela respondia de forma enfática “sou presa política”.
Submetida a um extenso tratamento que tinha além da medicação, a Eletroconvulsoterapia (ECT) como conduta terapêutica, Jacinta faleceu aos 57 anos de idade, no dia 28 de fevereiro de 1973, após um Acidente vascular cerebral (AVC), conforme atestado de óbito.
Por Luís Laércio Gerônimo
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